Morta por estupidez

Julho 15, 2009

Guardou cinco minutos dentro de um cigarro e voltou seu olhar para o caos do remorso que enchia sua alma.
Sofrera de duas derrotas fatais: uma pela paixão, outra pela dúvida.
Relembrou os insultos que não proferiu, mas que fez, e duas lágrimas espessas deslizaram pela face abatida.
Da noite anterior do pesadelo poderia nascer algo belo se articulasse apenas uma palavra em tom de súplica intensa: “desculpa”.
Determinada a sair da perene ignorância de suas misérias, ela decide a viver na perene ignorância da paixão.
Apaga o cigarro com firmeza.
O sangue do seu flagelo por fim, se estancaria.


Morta por estupidez

Julho 15, 2009

Guardou cinco minutos dentro de um cigarro e voltou seu olhar para o caos do remorso que enchia sua alma.
Sofrera de duas derrotas fatais: uma pela paixão, outra pela dúvida.
Relembrou os insultos que não proferiu, mas que fez, e duas lágrimas espessas deslizaram pela face abatida.
Da noite anterior do pesadelo poderia nascer algo belo se articulasse apenas uma palavra em tom de súplica intensa: “desculpa”.
Determinada a sair da perene ignorância de suas misérias, ela decide a viver na perene ignorância da paixão.
Apaga o cigarro com firmeza.
O sangue do seu flagelo por fim, se estancaria.


Balada do Coração Partido

Junho 10, 2009

O Pequeno Princípe conta que assistiu quarenta e três vezes ao por-do-sol. Um amigo ouviu Ugly Sun 211 vezes em menos de 12 horas. Aquela balada vestiu sua alma num dia ressentido e nublado. As crianças são capazes de repertir um filme inteiro, antes mesmo dos créditos subirem elas já estão com o dedinho no play pra repetir as frases e canções guardadas no dual-core. Quando gostamos das coisas queremos repetir. De tão simples, chega a ser tolo. Mas repetimos o prato, repetimos a dose, repetimos a música, repetimos o filme, repetimos a roupa… e repetimos também o amor. Como é fantástico se reapaixonar pela mesma pessoa! Conside as alterações de cenário, as dissonâncias entre o compasso do amadurecimento, respeitando as diferenças e os limites de cada um… É incrível quando acordamos e de repente, repetimos os pensamentos pueris da paixão, repetimos o sorriso no rosto por resgatar as lembranças no baú das memórias, repetimos o suspiro da ausência completa de palavras. É ótimo se reapaixonar pela pessoa a seu lado há tanto tempo, mesmo que de alguma forma isso parta o seu coração. Ou ainda que você tenha que repetir mil vezes o refrão de um bolero. Se reapaixonar é a versão aprimorada da paixão. Conseguir se reapaixonar muitas vezes pode ser o segredo do que significa permanecer junto, happily ever after. Junto que não quer dizer perto, mas sim dentro, com dizia Leo da Vinci. Essa é a balada do coração que parte, mas por querer repetir, ele sempre percorre milhas e milhas, e se reapaixona sempre. Sempre pela mesma pessoa.


Leaving on a jet plane

Maio 30, 2009

All my bags are packed, I´m ready to go
Im standin here outside your door
I hate to wake you up to say goodbye
But the dawn is breakin its early morn
The taxis waitin, he´s blowin his horn
Already Im so lonesome I could die

So kiss me and smile for me
Tell me that youll wait for me
Hold me like youll never let me go
cause Im leavin on a jet plane
Dont know when Ill be back again
Oh babe, I hate to go


Belo e impávido Gigante

Abril 28, 2009

Para construir a grandeza de uma pessoa existe uma equação despretensiosa, que desobriga o cálculo matemático quântico, mas exige o conhecimento físico, sobretudo visual e tátil e que se inicia com a soma de um metro e oitenta e seis centímetros mais o comprimento do sapato que calça um pé quarenta e três. Estime a colheita de dois anos seguidos dos ramos de sakurá que cobrem as colinas do bíceps braquial de um vermelho sangue. Calcule quilômetros de veias que conduzem litros do raro sangue, que serve a todos e como punição por ser tão generoso só se serve dele mesmo. Outras variantes menores são consideradas nessa engenharia como o tamanho curto do pavio da paciência para os desafortunados ou o incansável das carícias para o sexo; os dois centímetros do pêlo russo da barba que desafia a gravidade e é insistente em seu propósito em manter-se ereto em dissonância com seus pares; as dezesseis milhões de cores da íris verde atenta extraída de uma imagem de mar; as centenas de alvéolos pulmonares envenenados por nicotina e as dezenas de fragmentos de ossos perdidos na carne depois de quedas e brigas… a cavidade nasal obstruída. Equacione essas variáveis com um apetite colossal, uma vontade intensa de vida, um jeito manso e grave de falar e espontâneo de se divertir e de procurar graça nas mínimas coisas. Entregue o resultado em uma palma com ângulo curto de abertura, repleta de calos e cortes e linhas que revelam seu futuro espelhado em grandeza e que, adicionada aos dez dedos são capazes de afagos suaves ou força descomunal… As mãos talham então os números dessa minha equação mágica, transformando a brutalidade da rocha em um dorso macio que poderá servir de abrigo quando não estiver operando em sua designação maior como Gigante, belo e impávido, pela própria natureza.


Eu vou cantar você pra mim

Abril 16, 2009

imagem11


Fera Ferida

Abril 13, 2009

Agora que você tem esse carro grande, certamente pra compensar sua baixa estatura, com esse som tão potente, tire uma semana pra amaciar o motor. Carros são como cavalos, precisam conhecer o peso dos seus pés. Você anda precisando mesmo de férias, aproveite para revisitar seu passado e pegue uma estrada longa que você conhece bem mas há anos não percorre. Eu cuido de tudo pra você nessa sua ausência.
Arrume apenas uma mala, mesmo que seja aquela que comporta 80 quilos. Não reserve estadias, não trace rotas. Apenas plugue o mp3 no som, acerte os óculos no rosto confortavelmente e saia. Num dia de semana, sem hora certa. Depois daquela altura da estrada onde se fizeram tantos pequiniques, trave o piloto em 190 km/h, coloque os pés pra cima e acenda o farol alto, ainda que sejam duas horas da tarde. Deixe que aqueles por quem você ultrapassa pensem: “Lá vem a Fera Ferida”. É mais digno morrer em alta velocidade e, se pensarmos que você foge dos seus fantasmas é mais divertido imaginar que você sofre e por isso corre.
Sua infinita highway guarda um pouco de sua história. Como aquela vez em que a chuva começou um minuto depois de colocar todas as malas pra frente. Como nas idas e vindas infinitas de lágrimas, o choro compulsivo que irritava o motorista de ônibus, ou aquela vez que você parou no pedágio aos prantos e o moço da cabine fechou a cancela e te trouxe um copo d´agua com açúcar. Lembra? Você riu depois.
Caso você encontre a chuva, diminua a velocidade. Não queira aquaplanar como daquela vez na subida da divisa, nem se assustar com um carro repentinamente apagado na pouca visibilidade. Lembre-se daquele sábado, indo pra Lorena, na companhia da Loreena, como a chuva batia na carroceria e como foi assustadora pra você. Aquele dia não foi um bom dia. Mas acabou tudo bem, sempre acaba. Mesmo quando você passou em cima do pé do policial rodoviário, ainda assim, ele te liberou, mas era a calça pijama, o viaduto do Jararaca, o Pinhão e uma lista de desculpas ensaiadas previamente. Essa abordagem sutil, meio moleque, que te fez andar de caminhão muitas vezes nessa estrada, com conforto, coca-cola gelada e chocolate, ah!
Além das caronas que você pegou, lembre-se das que você deu. “Polícia. Alguém abaixa a cabeça”, era a senha pra duas pessoas começarem um desacordo sobre quem ficava abaixado e quem deveria levantar, o que sempre te fez rir muito. Pessoas levavam música, alegria e deixavam um pouco de si como perfumes e pertences. Lembra da vibração dos amigos ao entrar na 152 com o pé no fundo e ouvir um “Segura, galera!” E quantas festas no ônibus da faculdade quando tudo foi recapiado, e quantas vezes gelando no posto da patrulha de madrugada, e quantos rachinhas com desconhecidos que viraram café da manhã e quantas sextas-feiras de asv com seu pai e quanto rock’n roll e quantos morreram e quantas vezes você não quis voltar… e talvez ainda não queira, mas tem um motor pra amaciar e tempo excedente, o que é uma variável sempre escassa na sua vida.
Então, aproveite pra ver tudo e todos de novo. Sem nenhum receio. Você chegará a tempo de assistir aquele belo poente do bar do meio e como é segunda-feira e outono, você não sentirá timidez em sacar sua gaita pra reverenciar o céu laranja, rosa e azul que ilumina teu retorno. Corra no lago com a graciosa companhia do motoqueiro que parece o vocalista de uma de suas bandas favoritas e faça-o tirar a camisa. Quando pensar em voltar, não esqueça da minha cachaça, da rede azul que ando querendo e daquele salame que só tem por essas bandas.
Volte bem devagar, pode ser que você precise de mais dez anos. Não ligue seu celular, não abra a internet, não anseie pela rotina. Não se afobe, mesmo. Ou como dizia o seu príncipe “Sem pressa. O inverno é longo. Haverá tempo para dividir aquele edredon”.
Reencontre o conforto desse mundo em sete dias e dois mil quilômetros. Depois volte. Eu estarei aqui te esperando.


Meu querido, meu velho, meu amigo

Março 31, 2009

“Seu passado vive presente nas experiências contidas nesse coração consciente da beleza das coisas da vida. Seu sorriso franco me anima, seu conselho certo me ensina,
Beijo suas mãos e lhe digo, meu querido, meu velho, meu amigo”

- Esse é o único pedaço da estrada que não dá pra correr direito.
- hum…
- Aí, olha! Cheio de mato, o mato invadindo a estrada. Porque a prefeitura também não corta o mato dele?
- Porque não é responsabilidade da prefeitura.
- Ah, não vai me dizer que é esse velho gagá que tem que cortar o mato?
- Não. É o Sérgio Cabral.
- E porque todo mundo tem o mato cortado pelo Sérgio Cabral e só ELE não tem?
- Talvez ele não seja bom com as pessoas.
Silêncio. Penso naquele velho chato, faz tempo que ele é velho e ainda assim não morre nunca, desde criança que ele já é velho… e respondo:
- É. Ele podia ter feito tudo e não fez nada pra ninguém, muito pelo contrário, deixa a estrada cheia de mato pra eu ter que correr no meio da pista. Além do mais tem aquele rottweiler que me odeia, fica latindo o tempo todo. Eu lembro do dia que cheguei cheia de malas, nem tinha asfalto e ele soltou aquela fera em cima de mim. Ui!
- Hum… (rindo já)
- Daqui a pouco sabe o que ele vai fazer? Ele vai colocar uma corrente e vai colocar aquele cachorro mal-amado pra me acompanhar na estrada, de ponta a ponta na divisa dele… Ai!!! que velho insuportável!!!
- Pronto! (papai exclama feliz) Agora você chegou onde eu queria.
- Porque?
- Porque se ele realmente fizer isso o que você vai fazer? Vai levar um bolo de carne, no primeiro dia. Um pedaço de angú no segundo e a cada dia que você for correr,o rottweiler vai ficar mais seu amigo. Tanto, a ponto de ficar perigoso pro próprio dono.
- Hum… boa idéia. Acho que posso fazer ele furar a grade do apiário quando o velho for lá ver o mel…
- Tsc, tsc, tsc… – papai balança a cabeça contrariado – Bruáca. Monstro do tio Orlando. Você não entendeu nada do que eu disse.


Luz

Fevereiro 25, 2009

Prezado Kdu Gama,
é um pouco menos intenso que nossos debates filosóficos, mas acho fofíssimo e legítimo (ah, e está na alça dos nosso direcionamentos).

Yvaine’s Confession:

You know when I said I knew little about love…That wasn’t true I know a lot about love… I’ve seen it…seen centuries and centuries of it…
It was the only thing that made watching your world bearable… All those wars…pain …lies…hate… Made me want to turn away and never look down again…but to see the way mankind loves.
I mean you can search the furthest reaches of the universe and never find anything more beautiful…
So yes…I know that love is unconditional…but I also know it can be unpredictable…unexpected ….uncontrollable…unbearable…and strangely easy to mistake for loathing.”


Tempos Modernos

Fevereiro 25, 2009

Sábado:
- Dra, você pode por favor, colocar um Valiumzinho aí no soro, pra eu dormir umas 20 horas, vai ser duro ficar ouvindo os blocos na rua de baixo…

Segunda:
- Pai, tô liberada, vem me buscar. Te espero na praça da matriz. Vem rápido porque a rua de baixo vai fechar por causa dos blocos.

Meia-hora depois, na praça da matriz, eu de short colorido, sandália e camiseta cor-de-rosa, na flor da idade, caminho muito devagar. Minha tia, de 82 passa por mim:
- Oi, lindinha, tudo bem? Tá indo pro Jegue (bloco)? – me aperta num abraço.
- Não tia, to esperando meu pai, tô indo pra Barra Alegre. Cuidado, tia, vou te sujar de sangue.
- Ah, NOSSA! O que houve, tem um rastro de sangue, deixa eu ver esse dedo, o que houve, vamos pro hospital agora mesmo!
- Tia, eu acabei de sair de lá, você não tá entendendo. Olha, isso não é nada, eu to acostumada arrancar os tampos dos dedos, esse eu tirei com a faca semana passada e agora eu arranquei ele de novo no corremão do hospital, não tá doendo, só vai ficar pingando sangue até meu pai chegar. Ele sempre tem um pano no carro, eu vou enrolar o dedo e vai estancar.
Ela parecia meio indignada, mas acabou sorrindo e me ofereceu a coca zero que ela tomava.
- Tá bom. Vocês… jovens… A tia Geralda tá bem (minha avó)?
- Tá ótima, aparece lá em casa, tia. Ela vai ficar feliz de te ver.
- Tá bom, minha filha. O Xidei (meu pai) vai demorar muito? Quer que eu espere com você?
- Não, tia linda. Ele deve estar chegando, pode ir sossegada. Não se preocupe com o sangue. O dia em que eu parar de sangrar eu vou estranhar.
- Então vou ver o Jegue. Fica com Deus.
- Vai com ele, tia.
E ela foi, toda serelepe e a passos rápidos acompanhar o Bloco do Jegue Elétrico, enquanto meu pai apontava na curva.


Coroada, como rainha

Fevereiro 6, 2009

Lisbela tenta explicar pro seu pai porque vai fugir com Leleo Antonio da Anunciação. “Toda vez que ele me chamar eu vou, como um cachorrinho, mas coroada, como uma rainha”. Simplesmente porque pra ele, ela ficaria linda até vestida de Bozo, ou ainda, porque os corações nunca se enganam e o dela nunca houvera batido tão forte até aquele beijo de seis minutos.

“Le Vallée de la Douceur

Um reencontro impulsivo. Ambos sabiam das improbabilidades estatísticas, e parte de nós duvidou mesmo até o último segundo – meras trevas de incerteza que como relâmpagos negros antecederam a aurora gloriosa de seu sorriso. Sua silhueta esguia o sustenta como a um altar de marfim que paira no horizonte banhando de luz e néctar as minhas lembranças. O hiato cruel que se formou entre nós se esvai indefeso e impotente conforme nos aproximamos – não me lembro como resisti ao impulso de correr em sua direção. Seu corpo ainda delimita um espaço leve e delicado entre meus braços, um pedacinho tangível e perfumado do próprio céu. O abraço frágil, e ainda quase tenso, é como uma última evidência física, a prova sensorial que confirma o inusitado à incrédula razão. Aninha carinhosamente em seu peito as flores que lhe dei, com a gentileza de não ligar que eu as tenha colhido em seu próprio jardim. Acolhe-me em seu sótão no conforto aconchegante de sua eloqüência, conta-me do mundo lá fora com a cumplicidade de uma saudosa irmã, aceita-me achando graça nas minhas confusões. E nesse frugal desjejum de nossos corações, redescobrimos o encanto de ser e estar. Existimos, mas nenhuma prece é longa demais – o que também acontece com certas canções. E afinal, com a elegância de quem escapa de bandidos nos passos de uma doce valsa, você me guiou de volta a mim mesmo enquanto eu sonhava acordado. Tivemos que esperar para celebrar, o tempo chegou e foi embora, e agora, os minutos que não me passam aí ao seu lado de repente soam opacos por aqui.

Por onde estivemos esse tempo todo?”


Fevereiro 3, 2009

Dorme, amor

Encerre essa vigília que se alonga por dias ardentes e noites estreladas

Cerre as pálpebras exaustas de tanta luz

Permita que a noite colha o negro profundo de seus olhos para cobrir o céu dessa noite

Eu estarei ao seu lado

Envolva o travesseiro, alivie suas mãos cansadas e doídas sob sua maciez

Ele será a suave brisa perfumada e você a borboleta voando no dossel desses braços

Somente hoje retirarei a semente de feijão colocada no estrado, abaixo de seus dezesseis colchões para incomodar-te

Num débil murmúrio, entoarei a canção morna, a lírica doação que nunca perece na concha de teus ouvidos

Desenharei em suas costas as mais belas constelações, ligando e refazendo cálculos de sardas de todo um universo

Um universo feminino docemente inebriado de sonhos e esperança

Sonharás com fadas e encantos, paragens, aves divinas, campos acetinados e cheiro de mar

Sem qualquer pertubação que te atormente

Mesmo que o canto do regato leve lágrimas ocultas aos seus olhos

Deus tratará de enxugá-las. Deus é o Deus dos Valentes.

E afinal, quem é essa mulher a quem a noite homenageia embriagada de alegria?

Dorme, amor

Não lhe será permitido revisitar as laranjeiras em flor mais de uma vez

Nem permanecer no porto aguardando o barco que enfrentará rios encaichoeirados e nos levará a nossa ilha no nascente

É já que o ar da magrudada desesperta com um beijo a vida que dorme

Dorme, amor.


Ana e Bô falando do Bodão

Novembro 23, 2008

Dez anos depois, os melhores amigos estão ao telefone:
- A gente tem brigado muito, ele não está entendendo essa fase e aí acaba me ofendendo.
- Mas brigar com amigos é normal, todo mundo uma hora briga, sai na porrada, jura que não olha na cara, quer que o diabo morra, fica pensando em tudo o que ele sabe de segredo seu, mas depois volta tudo ao normal.
- Bô… ele fica me jogando na cara que eu brigava até com os meus amigos, que briguei com você… Você lembra que a gente brigou?
- Lembro, a gente ficou uns três meses sem se falar.
- Você lembra por que?
- Lembro.
- Você falou que eu era como um menino, que gostava de coisas de menino e eu fiquei uma fera.
- É engraçado – e ri.
- Por quê?
- Porque essas coisas são as que eu mais gosto em você.

(Postado em 2006, em meados de setembro, no meu antigo blog)


Terra é terra

Abril 22, 2008

Ainda não é inverno, mas o frio já chegou aqui. O sol alto e o céu muito azul com nuvens ralas, esparsas, evidenciam uma bela segunda-feira sem muito o que fazer. Pegamos a estrada de terra que ainda não sabemos em que estado está, com as chuvas era certo encontrar atoleiros nos 10 quilômetros à frente. Era um dia de sorte. Um caminhão, provavelmente de areia, teria passado muito bem antes de nós e coberto os pontos críticos por onde poderíamos ter agarrado. Com todo o respeito que existe entre automóveis e estradas de chão, vamos entrecortando as montanhas, atravessando o rio de um lado e de outro em pontes de madeira trepidantes, com ripas soltas, que gelo no estômago! O mato que cresce no meio do caminho revela o baixo tráfego de pessoas e rodas. Uma paisagem bucólica, verde, iluminada. Um pau-d’alho exibe sua força suntuosa nas raízes que descem o barranco e quase encontram a estrada. “É a curva da Fazenda da Alegria”, da qual só sobraram as ruínas de pedra dos muros que a cercaram um dia. Um sombreiro de bambus. “Aqui uma vez o papai veio buscar o amigo do filho da D. Julieta. Um mensageiro a cavalo foi lá em casa pedir ajuda e o vovô veio com tio Eraldo. Ele tinha sido mordido de cobra e era filho do general Lotz. Esse general Lotz era um cara muito temido, tinha sido imposto governador e era influente na baixada fluminense. Papai vazou aqui por dentro e foi sair lá na ponte de Berçot. O tio Eraldo voltou pra casa a pé, chegou às seis horas da tarde, pra dar notícia pra vovó”. Assim vai falando meu pai. Enquanto presta atenção na estrada, aponta a história daquela terra, fazendo uma paradinha aqui outra ali – estamos entre os quatrocentros alqueires da Fazenda São Lourenço. Uma curva, muitas casas e já se vê o telhado. Fazenda velha essa. Do tempo em que as telhas eram moldadas nas coxas. Casa imponente. Muitas grandes janelas, muito altas, guardando salas com espelhos bisotados e folheados a ouro. Cada sala um estilo. A biblioteca com um exemplar manuscrito do Rei Lear. De repente, um jardim aberto, no meio da casa, para uma piscina de água corrente. Uma capela. Todas as paredes caiadas de branco, janelas e portas em verde. Um amplo terreiro de café, tomado pelo mato. Lodo nas escadarias do acesso principal. Um curral descuidado. Um duto seco de água que um dia abasteceu o engenho de cana, a casa e a piscina. “Aqui era uma escola, olha”. Bonito de imaginar as reuniões e as pessoas que estiveram ali há 100, 200 anos. Triste de ver seu destrato. Entre os rastro da boiada que circula por onde um dia foi jardim da casa, manobramos nosso carro, meu pai um pouco contrariado de passar o pneu na bosta. Ele sempre me disse que bosta de vaca é muito ácida e corrói a lataria. “E se acontecesse com você? Eu te pergunto: você ia preferir viver na miséria ou vender suas terras pra ter uma vida mais digna?”. Penso um pouco antes de responder e olho praqueles colos verdes infindos de terra. “Terra é terra. Não é uma coisa da qual se desfaz. Além do mais, terra assim é crédito, pode não ser dinheiro no bolso, mas é cooperativa, é parceria com instituições agrícolas, universidades. Você pode diversificar, se associar a muitos. Esse é meu jeito muito peculiar de ver as coisas, pai. Ninguém que tem terra pode passar fome”. Não sei que resposta ele esperava, mas essa resposta deu seqüência a uma série de comentários sobre os quatrocentos alqueires da Fazenda do Coqueiro, e ao mesmo tanto da Fazenda do Canteiro… até que encontramos novamente o asfalto para a Fazenda do Barro, o sítio São José, meus extensos domínios alegrenses.


A festa do meu vizinho

Abril 8, 2008

Chuva na metrópole, faróis altos para romper o breu, prédios geminados, janelas devassadas. Era assim ontem à noite. Ontem foi aniversário do meu vizinho. Eu só o vi uma vez, num final de semana, pela alvorada. Trajando uma cueca samba canção molhava as plantas. Ele tem poucas plantas, mas tem um bambu mussô pomposo. Aqui só duas orquídeas e uma flor de maio que floresce em julho. É uma varanda grande e três janelas de quartos e uma maior que abre para a varanda. Aqui só tem duas janelas. Ontem a varanda estava cheia. Um senhor de alva cabeleira apoiado na grade, outros sentados nas quatro cadeiras de vime com encosto em brim natural, entre duas mesinhas circulares dispostas de forma a não atrapalhar a passagem. Transeuntes para todos os lados. Aqui só vazio e solidão, nada atrapalha meus passos desconfiados. Luzes todas acesas, muita claridade e rubor nas faces. Aqui só escuridão. Muitas camisetas brancas, havia um rosto estampado e uma frase ilegível. Aqui uma gola rolê preta, um rosto desfigurado e muitas frases sem qualquer nexo. Eles cantaram o “Parabéns para Você” três vezes. Devem ser trigêmeos. Ou meu vizinho escapou três duas vezes da morte. Ou ele, o pai e a mãe nasceram no mesmo dia. Aqui, silêncio… ouvia apenas o trabalho vital de obtenção de ar. Crianças giravam seus pezinhos entre pernas adultas, soltavam gritinhos de susto e povoavam o ambiente com os sons da alegria. Aqui só tristeza. Cristal conservado em armário por anos, tilintava em brindes de felicidades e muita saúde. Aqui só dor, desânimo, desamor. Se uma alma desatenta da fantástica festa tivesse reparado no apartamento apagado da frente, talvez percebesse minhas órbitas nas trevas. Os pingos da chuva que escorriam pela janela fariam parecer que eu chorava.