A passarela

novembro 11, 2011

São 20 horas e trinta minutos de um inusitado 11 de novembro.

Me lembro bem.

Chove bastante.

Você dorme há horas no quarto que fora o da tevê um dia.

Apareceu  de surpresa num combinado impulsivo.

Quase totalmente imprevisível.

Introduzi todas as centelhas de vida que me alimentavam.

Repassamos em um dia o tempo que vivemos separadamente.

Como?

Ainda não sabemos, mas trocaremos um abraço.

O céu explodirá em bilhares de estrelas.

E por fim, ajoelhada, te entregarei o que sempre fora seu.

 

Ainda não chove, estamos procurando um ao outro entre um milhão de pessoas.

Você está ao final da passarela que separou nossos mundos para sempre.

Ou talvez meu orgulho o tenha feito.

Está em pé. De camisa branca e cabelo desfeito.

E eu sou a mulher mais feliz do mundo nesse momento.

 

Nada disso

Nem o amor

Nem a passarela

Nem sua paciência

Nem a chuva

Nem o sótão

Nem a suave colisão dos corpos

Nada existe mais.

 

Apenas o dia 11 de novembro.

 


Apelo

setembro 9, 2011

Se preferes ficar algemado ao que considera ideias próprias, que não passam de velhos conceitos com nova roupa que estava guardada no ármario que você mesmo barganhou, então, eu prefiro me manter a distância de você.

Porque cedo ou tarde serás penalizado pela solidão que cultivas com suas certezas.

Pode querer enganar seu espelho, mas sua face sorridente de outrora, agora se faz presente em marca embolorada e suja em seu semblante macilento. Não há sorrisos nem alegria, nem por fora, nem por dentro. Vejo em você o egoísta mesmerizado com a imagem que construiu ao seu redor com outros infelizes que compartilham do mesmo tédio. Preocupações enfadonhas e desprovidas de qualquer interesse alheio.

Há muito mais em você que me causa desprezo. A insistência em não ver a vida com olhos maduros, em não assumir as escolhas sobre as quais nunca tens certeza, a necessidade de se manter em masmorras de veludo vermelho apenas para provar sua gigantesca insegurança.

É triste. Porque é você. Morrendo em plena vida. Digno de pena. Se esgueirando à margem do tempo enquanto se arrepende e, ao mesmo tempo, peca em erros grotescos.

Se prefere uma vida fútil, ou se é apenas essa migalha o que é capaz de oferecer em seus pratos adornados em ouro e cravejados em valiosos rubis que tanto fazes questão de exibir, te suplico que me reserve desse indigesto banquete.

Porque cedo ou tarde perceberás que a dor que inocentemente causas, destruirá qualquer oportunidade generosa do perdão.

Quero que tome seu caminho e terei gosto em me esquecer de te dizer adeus. Seu ego alterdigirido nem perceberá em seu retorno a sua casa o peso de qualquer palavra minha. Isso explica inúmeras tentativas exasperadas em mostrar meu desinteresse. Vá embora, enquanto a vida continua chorando por você.

É triste. Porque sou eu. Pagando pelo mal que te causei. Caminhando no breu. Preferindo ardentemente sua ausência muda.


A Egoísta

dezembro 2, 2010

Essa é uma mensagem para duas egoístas. Mas não são quaisquer duas egoístas, são duas egoístas que insistem em ter amigos. A questão do gênero aqui, vai variar. Se vc preferir, o título pode ser O Egoísta. Não importa. Você, tenho certeza, já encontrou gente assim, ou o que seria pior, já se comportou assim.

Era uma vez A Egoísta. É desnecessário dizer que só pensava em si. Não era aquilo que podemos chamar de bela, já que a natureza de suas curvas desproporcionais seria considerada banal pela indústria da beleza contemporânea. Também não era financeiramente muito bem provisionada, embora achasse que sim e se importasse bastante em ostentar seus parcos recursos.

A instrução e o acervo cultural da A Egoísta deveriam ser considerados, pelo discurso ou pelo currículo que fazia questão de exibir, no entanto, como suas preocupações voltavam-se apenas para o seu umbigo, era pouco profunda e revelava seu despreparo ao tentar criticar ou relacionar temas aparentemente impossíveis. Nem todos os títulos poderiam melhorar essa condição, pois ela não possuia o elementar, a sedimentação de seus conhecimentos.

Sua insegurança era declarada pelo gosto excessivo pela exposição. Seus caprichos advindos de uma infância mimada se relevavam na constante necessidade de fazer prevalecer suas ideias, suas histórias, suas mentiras. Sua arrogância notava-se na falta de fino trato com as pessoas que a cercavam, sobretudo os que lhe prestavam atendimento e serviço. A Egoísta preferiu transformar a autonomia que herdou do sacrifício feito por filósofos em defesa do individualismo, em puro egoísmo.

Nunca a vi perguntando aos amigos se eles precisavam de alguma coisa. Se havia alguma coisa que ela poderia fazer por eles. Era raro vê-la replicar: “e você? tudo bem?”. Nem havia consciência nela sobre a falta de altruísmo. Jamais se pode sentir falta do que nunca se teve. Era incapaz de perceber tristeza, ansiedade ou alegria no semblante de seus amigos. Não ajudava as pessoas porque não tinha tempo para conhecê-las a fundo e assim, não estabelecia laços confiáveis para estender publicamente sua mão amiga, tomando esse ato como risco contínuo.

Jamais prestou-se à caridade, mesmo a mais entregue de todas que se faz ao emprestar os ouvidos para alguém despejar lamúrias. O pouco bem que fez cobrou à exaustão, difundindo entre seus pares suas atitudes de compaixão e realizando um julgamento quase voraz sobre suas vítimas. Não teve oportunidade, a pobre, de desfrutar do benefício do esquecimento quando fazemos o bem para quem amamos.

Ou talvez nunca tivesse amado seus amigos de fato. Ou nem saiba exatamente o que significa ter um amigo. Agora, talvez, não importe mais. Um dia, seus amigos se foram. Cansaram-se de ver que A Egoísta, circulada por seu mundo e seus caprichos, jamais perceberia que existem milhares de mundos em volta do seu, que precisam ser vistos, explorados e reconhecidos.

E assim, A Egoísta passou o resto de seus dias no enorme castelo de ilusão que construiu para si e não importava quantos aduladores flutuassem ao seu redor. Ela sentiu só para sempre.

Fim


Ozzy e eu

setembro 29, 2010

Esse negócio de biografia é geralmente um saco. Quando eu vi “Marley e eu” na televisão (porque eu tava num hotel e não tinha mais o que fazer) não entendi porque contar uma história de submissão a um cachorro, em que o animal dominava a casa e a família.

A sorte é que as coisas mudam. Eu tenho um labrador. Ele tem 8 anos, chama-se Meek. Era pra ser Nicko, como Nicko McBrain, o baterista do Iron Maiden. Mas minha mãe tinha um tio que chavava Nico e o mais próximo que achei era esse e eu queria mesmo que ele fosse manso. Manso comigo, bravo com os outros. Quando o Meek veio pra cá, ele tinha dois meses. Tinha um coração no peito, coisa mais linda. Eu vinha todo final de semana pra ve-lo e acompanhei todos os perrengues. Passo mal de saber que ele não está bem ou que está sumido atrás de alguma cadela no cio. Bem diferente do Marley, o Meek é um cachorro livre, que bebe água do lago dos peixes e corre atrás das galinhas só pra ver penas no ar. Ele dorme embaixo de um pé de café, numa moitinha de folhas que ele mesmo fez. Nada de ficar dormindo dentro de casa. Enfim.

Fato é que Meek tá ficando cansado. Então, o físico ganhou um outro labradorzinho caramelo, ou amarelo, lindo e resolveu presentear a sobrinha que completou 6 aninhos, minha Nena. “Vai chamar Ozzy”. Minha mãe também teve uma tia que se chamava Nena… preciso dizer que ela não queria que a neta tivesse o mesmo apelido?… Ela acabou concordando porque não teve escolha.

Ozzy
Ozzy chegou na semana passada. Nos dois primeiros dias chorou a noite inteira. Eu disse que não ia levantar: ele estava quentinho, com comida e água. Tinha que aprender que noite é noite e dia é dia. Depois que a gente tem filho fica fácil fazer essas coisas. Mas o santo do papai resolveu andar com ele na madrugada pelo sítio e levantar 5h30 da manhã pra dar comidinha pro Ozzy… Começamos mal… Ele nunca levantou pra ver a Nena quando ela NÃO estava bem.

Acontece que o papai resolveu tirar umas férias e ficar 10 dias em Natal, lá no Rio Grande do Norte, horas de avião, sabe? “Fiz essa tábua aqui para prender o Ozzy na garagem e vc não precisa se preocupar”. Não. Uma tábua de 5 metros, pesadíssima, que vc puxa pra um lado ela escorrega do outro e fica tudo escancarado. Como a garagem tem desnível ele fez um “calço”. Conclusão: o Ozzy empurra a tábua e aquilo fica balangando a noite toda. Sem contar que ele aprendeu a domar o portão vai e vem das varandas e outro dia… ah… ele teve um encontro fatídico com as bonecas da Nena… comeu duas delas, arrancou os cabelos e largou tudo pelo chão.

Então chega a parte que entendo o dono do Marley. Não tem como não amar aquela coisinha. Dá vontade de apertar ele e colocar ele na cama com a gente, debaixo do edredon, sabe?

Hoje eu não aguentei mais ele chorando a noite toda, levantei 5h30 e fui ve-lo. Ele pisou no xixi e pulou no meu pijama, na minha meia, mordeu a manga da blusa. Eu o alimentei. Chamei o Noco e mandei ele fixar definitivamente a tábua, deixando apenas um quadradinho para o Ozzy sair, que agora está tampado com uma lata de areia (pesadíssima também). De manhã, Nena fica com ele pra baixo e pra cima. Ela tem perfume de Ozzy agora. Tudo nela cheira Ozzy. A tarde, prendi o Ozzy na garagem e tentei trabalhar. Não foi possível. Ele chorava demais. Então, assim como o dono do Marley, reuni todas as minhas coisas e fiquei no jardim, quase no sereno, mas ele pode brincar comigo e com o Meek. Dei uma canseira nele. Há sete horas ele dorme direto. Vou fazer o mesmo agora. Antes que ele acorde.

P.s: Editorialmente falando esse é o meu pior texto. Tem cansaço nas frases que fiquei com preguiça de elaborar. Em compensação, é um post cheio de amor.


Um jacarandá gigante e uma cerejeira pequena

agosto 5, 2010

- Incompetentes precisam de sorte. Você não.
- Eu gostei disso, vou tatuar aqui desse lado do tronco, era exatamente essa frase que eu procurava.
Era um jacarandá grande e forte, com várias inscrições no caule deixadas por outrem. Embora ele fosse majestoso na proporção e área de sombra, a pequena delicada e florida cerejeira tinha mais primaveras contadas e acumulava mais experiência de vida.
- Quer ver o que eu faço com esses galhos aqui? Eu contorço pra cá e contorço pra cá e eles se parecem com o bigode do Bobinsky.
Muitas gargalhadas sonoras.
- Vamos deixar que as pessoas também vejam, está muito engraçado.
Uma noite, ela reclama do frio. Ele estica suas hastes e a envolve gentilmente. Só então ela percebe que ele é um gigante, e ele percebe como ela é pequena.
- O que importa é que sejamos sempre amigos, já que habitamos essa colina esférica.
- Sim, e que a gente possa se divertir com as pessoas que vem desfrutar da sua sombra e da minha beleza.
Um dia, apareceu um poeta e sua namorada. Eles ficaram admirados com a energia que envolvia as duas árvores e ele então cantou: jacarandá essa cerejeira gosta muito de você, pois não se acanha em se apresentar ao lado teu.
Um dia, colocaram um poste de luz amarela opaca próximo à cerejeira.
- Não vejo mais as estrelas.
O jacarandá acomodou-se, definitivamente, de uma maneira que um ramo bem robusto cobrisse a luz.
- Agora vejo todas elas. E elas nos vêem.

(escrevi ouvindo The Fratellis, Ole Black ´n´Blue Eyes)


D. Pedro

agosto 4, 2010

- Oi, tudo bem?
- Você não se lembra de mim, mas eu sou o príncipe estudamos juntos na primeira série.
- Mas eu me lembro de você. Você copiou a primeira redação que eu fiz na vida na íntegra e fez nossas mães comparecerem ao colégio… lembra?
- Não. (rindo)
- Elas tiveram que ir lá porque eu dizia que a redação era minha e você dizia que era sua…
Ela sorri gentil e acha muita graça. Tem os cabelos bem curtos e ficou pequena. Usa uma calça vermelha e um blazer azul nessa noite que é bem fria.
- Eu estudo História e te vi no jornal, você está fazendo jornalismo.
- Pra você ver que a redação era mesmo minha.
Eles riem bastante. Ele usa uma calça vermelha e uma camisa azul de um poá bem grande. Os cabelos são compridos e ondulados.

Ele se parece mesmo com D. Pedro.


Rio Branco com Almirante Barroso

junho 17, 2010

Os dois caminhavam desapressados. Desatentos do mundo.

Era um pouco tarde da noite. Fazia algum frio.

- Que nada, agora você agora vai me ver muito mais

- Ah, é? E porque?

- Porque a gente vai namorar, ué.

Ela quase abriu os braços, mas naquela esquina era meio perigoso.


Prosa e Sexo

abril 26, 2010

O diálogo acontece num sítio no Carmo entre eu e uma tia doce e firme tal qual rapadura:
- “Outro dia eu fui no médico e ele perguntou como era minha vida sexual”
Ela embola as mãos, indicando que é desconcertante introduzir esses assuntos. Uma flor.
- “Então eu disse que era tudo normal, que não tinha nada de errado não”
Eu ri.
- “Mas falei pra ele que gosto de ser tratada com uma dama. Não sou um cavalo que se monta. Gosto que aconteça tudo direitinho, sabe?”
- “Sei, sim”. Respondi com um pingo de lamento porque são coisas raras, mas continuei: “Lentos e longos beijos, exploração de toda menor geografia do corpo, observação de cada detalhe… despir-se bem devagar e passar a noite toda amando”.
Ainda bem que eu sei como é.


Elogio ao cuidado

abril 14, 2010

Eu prefiro correr pouco. Eu podia correr mais, mas a tíbia não deixa. Eu devia ficar na cama sem fazer nada e aí, em junho eu estaria correndo normalmente. Mas eu prefiro correr um pouquinho por dia e quem sabe no ano que vem eu retomo a quilometragem de antes.
Eu prefiro ter bolhas nos pés. Ainda que os sapatos apertem e faça calos e olhos de peixe. É preferível ter os pés arruinados a usar sapatos confortáveis.
Entre dormir e trabalhar eu prefiro o segundo. Gosto mais de estudar e trabalhar, mas as vezes eu preciso dormir muito e me permito esse exagero. Assim cuido da minha desgatada mente.
É bom ver os pulmões a plenos vapores e sentir o coração pulsando na garganta. Afastar o diafragma do umbigo e tomar ar. Eu prefiro.
Eu prefiro exercitar a vista, conforme sugestão médica, ao conforto indiscutível dos óculos.
É preferível ter força nos braços pra bater manteiga e pão e provar um pedaço de céu na boca do que ter músculos flácidos ao acenar.
Eu prefiro ter os pulsos lanhados do que deixar de usar pulseiras.
Prefiro ter as pernas arranhadas do que deixar de andar no mato.
De todos os meus órgãos e tecidos só tem um que não tem preferências: só não dá pra expor o coração a riscos. De tão flagelado, ele mal bate ou apanha. Suas feridas estão expostas, abertas, não há sinais de sutura. Não há cicatrizes porque ele não cicatriza.
Então, eu prefiro ter um coração cuidado, guardado num relicário, do que exposto a desaventuras.
Responsável que sou por seu estado lastimável, acendo uma vela todos os dias por ele, e peço que ele me perdoe e possa continuar pulsando sem se incomodar com minha presença ao seu redor.


Santa Semana

abril 4, 2010

Era sábado de aleluia. Ela havia brincado bastante com a semana adjetivada e ria disso. Tarde quente e úmida, o cheiro de chuva da grama de fora se misturava com o cheiro do pó de serra e tiner.

Estava na oficina de seu pai. Quer dizer, na oficina do seu avô. Ou melhor, na oficina que fora do seu bisavô. “Até parece que sabe lidar com isso aí”, comenta despretencioso o caseiro. Ela suspira um tanto impaciente. “Do jeito que você gosta de pó de serra e tinta, só pode mesmo ser neta do Evilásio. Sabe que ele só saía da casa da luz pra vir almoçar?”. Sai um “É…” comprido e grave, suficiente para fazer seu interlecutor perceber que ela desejava estar a sós, apenas com o silêncio em sua mente.

A tarefa daquela tarde era relativamente simples e ela buscava nos suspiros da sexta-feira da paixão a inspiração para adornar uma delicada caixinha. Usou tinta a base de cor de creme acizentado, “menos vermelho e mais azul”, pensou em rgb e, com um pincel delicado, deveria brincar de arabescos. “Jasmim Manga…”, pensou e sorriu largo, “sim, Jasmim Manga!”.

Imitou a pequena e delicada flor do pé de Jasmim Manga, uma flor de quatro pétalas, de um rosa suave. Em seu tradicional grafismo, apenas os contornos pretos. Uma, duas, dez… galhos e vento. Um mosquito de feijão veio lhe fazer companhia. Mordeu-lhe as orelhas, mordeu-lhe a nuca, mordeu-lhe o pescoço. Concentrada na precisão dos seus traços, ela se recusa a armar as mãos a espalmá-lo. Nem precisou. Ele caiu, talvez inebriado pelo odor da tinta à base de óleo e prendeu um dos seus seis minúsculos pés na tinta fresca, num dos ramos do pés de jasmim. Ela riu. Observou-o de perto, ao mesmo tempo em que finalizava seu desenho, um pé de jasmim manga num sábado de aleluia.

Um pé de jasmim manga pra adornar a caixinha da única semana adjetivada do ano: semana santa, sexta-feira da paixão, sábado de aleluia, domingo de páscoa.


março 18, 2010

Daquilo que vemos há sempre mais a ser visto.
O que olhamos hoje com miopia, sigularidade e graça, olharemos amanhã com altivez, com horizontes e punjança.
No entanto, enganam-se todos sobre o olhar.
Apenas o olhar do humilde saber ver.
Não há nele o desejo de consumo do mundo, das massas.
Seus olhos não se seduzem pelo efêmero.
Ele tem o olhar calmo e doce.
Pousa delicadamente suas íris em objetos e cousas que ninguém mais vê e se admira e agradece por elas.
Seus olhos anônimos não podem ser notados pela multidão apressada. Só eles notam a criança que chora no seio da mãe.
Eles não vêem as lágrimas, eles vêem fome e dor.
Enquanto os outros olham para a cidade, ele olha para o chão em busca de sementes, pequenas flores ou pólem que indiquem o renovado outono.
Eles permanecem despertos entregues em cândida rendição observando os filhos estirados na cama enquanto dormem e vê neles estátuas de mármore  branco.
Opalina certeza dos desígnios do inexplicável.
A beleza que os olhos dos humildes encontra está em toda parte: na onda que quebra, nos sinais de trânsito, na cadeia de montanhas, nas milhares de estrelas, no frio, no calor, no canto, na dança, no pequeno, no imenso, no riso, no pranto, no preto e no branco.
Só os humildes, porque não precisam consumir o mundo, eles sim sabem o que é ver.
Eles vêem seu amor refletido no outro numa atitude de entrega tão incondicional que envergonha e embota de lágrimas os olhos cegos alheios.


Breadcrumbtrail

março 8, 2010

Esqueça como é a expectativa,
ele está te esperando depois da aula.

Esqueça onde fica sua garagem,
pense demais e passe a entrada, a agulha, a vaga.

Esqueça de falar da sua vida e do antes,
recupere as fotos na caixa, conte histórias, chore e sorria.

Esqueça quando você aprendeu a esquecer.
Lembre-se do quanto faz bem lembrar.

Esqueça como é dividir da cama,
revire-se, lute por seu espaço e deixe-a ruidosamente.

Esqueça que a felicidade é a melhor maquiagem,
sorria muito, bem largo e veja seu lindo reflexo no espelho.

Esqueça de ser gentil, tolerante, amável,
dê abraços eternos e longos beijos, lentos e ardentes.

Esqueça a proposta de ter alguém só pra você,
aceite o desafio, mesmo que sejam poucas horas.

Perca-se no labirinto das confusões mentais,
tente não racionalizar tanto assim.

Como talvez você se perca e se esqueça,
marque o chão com uma trilha de pão.

Em meu colo e em minhas costas.


Fotos de Barra Alegre

fevereiro 21, 2010

Estava no meu armário uma Minolta profissional da década de 70. Ganhei de um tio quando comecei a ter laboratórios de fotografia na faculdade. Achava muito complicado fazer as contas de abertura de diafragma e velocidade do disparador e quando aprendi apareceram as digitais e aposentei minha Minolta. Com medo de dar mofo nas lentes, resolvi praticar um pouco. Sucesso total, na minha humilde opinião.

Km 20 – Cacho de bananas

Pedra da Jade


Capela vista lateral

Capela vista de frente

Vila

É proibido pescar!

Micro sementes no chão

Km 23 da RJ 146 – José Alberto Erthal

João de Barro construiu nas minhas terras

Abre a porteira coração!

Nena, água gelada e cristalina

O velho cedro. Ali me sentarei pra olhar as estrelas. Assim que morrer.

Inacreditavelmente eles pousaram depois que ajustei a máquina.


Larica

dezembro 24, 2009

Na cozinha, os dois faziam seus pratos. Ela usava a parte esquerda da bancada de costas para ele. A ceia era farta e a fome era descomunal.
- Hum eu adoro isso!
- Eu também!
- Eu tô falando do orégano.
- Eu também.
- Achei que você estivesse falando do queijo.
- Eu também.


Parábola dos Talentos

novembro 4, 2009

Há muitos anos, num reino distante nasceu um príncipe próspero e farto em saúde. Suas três fadas madrinhas foram visitá-lo e a ele delegaram vários talentos: terás uma bela voz, terás o mais belo corpo, serás exímio caçador. Mas, como bem sabemos, faltou a vilã. Nesse momento, chegou a bruxa má. Dessa vez, fora mais esperta. Esperou as três fadas fazerem os pedidos e depois entrou triunfante. Não haveria como desfazer seu feitiço. “Ó esbelto, generoso e valente príncipe. Como castigo por não ter sido convidada para a festa eu te darei todos os talentos. Você será capaz de executar qualquer tarefa com máxima perfeição e por esse motivo, não achará uma tarefa sequer que lhe contente”.
E o príncipe viveu infeliz para sempre.


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