Les Miserables

fevereiro 4, 2010

Não dormi. Pensei em projetos e pessoas. Muitos pensamentos. Idéias tolas, idéias boas. Anotei tudo. Vi o dia nascendo, sabia que seria longo. Tomei um guaraná tibiriçá. Fui pra reunião e um projeto virou dois, três, dez, cinquenta, cem. Sai de um reunião e fui pra outra. Café na Álvaro Alvim. Centro da megalópole parado por um trio elétrico. É carnaval. Já paguei, muito caro seu café. Almoço na Rua do Ouvidor. Sono. Sede. O trio invade a praça quinze. Duas almofadas de falar perfeitas. Penso em minhas misérias no mar. Dia lindo, céu azul. Rainha das águas, me guia e me ilumina. Compro o material escolar da Lorena. Me apaixono pelas cores e texturas de cadernos e canetas. Imagino. Imagina? Mando mil e-mails. Mando alguns tuites. Falo pouco no celular. Vou pra praia pra dar uma notícia ruim pra alguém. Sei que você pode me ouvir do outro lado. Está bem ali na minha frente. Te vejo pela sua janela. Morro de saudades. Penso em suas mãos de toque mágico. Encontro minha heroína. É dia de Iemanjá, mais mar, mais céu, mais cheiro de mar. Volto pra casa. Ainda não consigo dormir. Pensamentos não cessam. Cansaço, saudade, amor. Vou escrever.


My memory of love will be of you

janeiro 15, 2010

- Quem disse que essa bússola não aponta pro que queremos mais?

Ele fecha a bússola que não aponta para o norte e quando abre, como um passe de mágica, a bússola aponta para ela. Dia claro, preguiça, calor.

- Sabe… Tinha alguma coisa em você ontem.
- Como assim?
- Não sei. Quando você advinhou que a Bibio tinha tirado você de amigo secreto… Daquele momento em diante, ficaram todos prestando atenção em você. Ficou um silêncio na sala.
- Eu reparei. Fiquei tão sem graça.
- Você parou todo mundo com esse magnetismo que condena bússolas…

Eles riem… Se mexem… recordam individualmente a noite interior.

- É você. É você que faz isso. Você faz com que todos os momentos sejam encantados. Os olhos brilham. Meu coração parece que vai sair pela boca. Todos reparam e… eu não consigo parar de sorrir. Um minuto que seja.

Que Deus lhe me dê mais dois terços de vida para as memórias do amor.


Eu te amo

dezembro 29, 2009

Sussurado em meio a multidão que observa a suave colisão de nossos corpos em longo abraço.  Proibido. Dito com lágrimas, guardado a sete chaves por anos a fio. Porta consigo um tanto de alma que escapa numa fração maior que o segundo…”Eu te amo”… Pleno em liberdade, alegria, leveza. Promessa de um futuro. Pleno. Uma eternidade em uma noite no momento em que os lábios se encontram. Imortal enquanto dure. Simbolizado por vento na rede em tarde quente. Embalado pela precisão de encaixe doce de dedos, braços, pernas, coxas. Tatuado em azul no guardanapo da Colombo. Um caminho demorado, muitas milhas…um final cada vez mais bonito. Terra e sangue compartilhados. Idéias, conhecimento. Doçura. Simplicidade. Paz. Sem nada mais a temer.

Eu te amo.


Larica

dezembro 24, 2009

Na cozinha, os dois faziam seus pratos. Ela usava a parte esquerda da bancada de costas para ele. A ceia era farta e a fome era descomunal.
- Hum eu adoro isso!
- Eu também!
- Eu tô falando do orégano.
- Eu também.
- Achei que você estivesse falando do queijo.
- Eu também.


Parábola dos Talentos

novembro 4, 2009

Há muitos anos, num reino distante nasceu um príncipe próspero e farto em saúde. Suas três fadas madrinhas foram visitá-lo e a ele delegaram vários talentos: terás uma bela voz, terás o mais belo corpo, serás exímio caçador. Mas, como bem sabemos, faltou a vilã. Nesse momento, chegou a bruxa má. Dessa vez, fora mais esperta. Esperou as três fadas fazerem os pedidos e depois entrou triunfante. Não haveria como desfazer seu feitiço. “Ó esbelto, generoso e valente príncipe. Como castigo por não ter sido convidada para a festa eu te darei todos os talentos. Você será capaz de executar qualquer tarefa com máxima perfeição e por esse motivo, não achará uma tarefa sequer que lhe contente”.
E o príncipe viveu infeliz para sempre.


2h43

setembro 19, 2009

0:00 Fade to Black.

1:51 Um vioncelo tenso demais para se interromper, um violino doce e pleno. É uma chamada inesperada. É doce, tensa e plena de memórias.

2:11 Hesito. Reconheço esses números.

2:50 A luz digital do plenilúnio invade o quarto verde. Esfrego os olhos. Caminho na escuridão.

3:08 Aumenta a frequencia cardiaca. O plaquetas e glóbulos se agitam. Amígdala e hipocampo travam um embate.

3:44 O nervoso toma conta do sistema.

4:01 A agenda começa com a letra A. Um acidente. Um ato enganado. Um aviso. Um amor. Um abuso. Um absurdo.

4:27 Answer.

4:28 Silence.

4:29 End.

4:55 Retomo as conexões sinápticas neurais. Meu fluxo sanguíneo se acomoda novamente nas veias.

5:01 Tenho certeza da visita inconsúltil displicente e registro a chamada atendida.


5 anos

setembro 2, 2009

Carne dilacerada pela lâmina de aço, um corte no coração de alto à baixo e uma flâmula tremulando ao meio. Solene, imperiosa, digna de tempestades. Seu nome estampa o brim que foi tingido por meu sangue. És tatuagem perene em minha pele, és flexibilidade diária para meu corpo de prata com membros de mármore, és júbilo, perfeição e alegria. Rainha do reino de Lotério, enquanto me destrói e me reduz ao pó de onde vim, seus súditos se envergonham de ver em ti tanta beleza e inteligência reunidos em corpo e alma. Minha senhora, minha filha, viva 100 anos!

“Sim, dos teus pés na terra nascem flores
A tua voz macia aplaca as dores
E espalha cores vivas pelo ar.
Sim, dos teus olhos saem cachoeiras
Sete lagoas, mel e brincadeiras
Espumas ondas, águas do teu mar.”


Pirataria em terra

agosto 24, 2009

_rum

A Confraria Pirata se reuniu por motivo de emergência na enseada da Guanabara nesse fim de semana. A pergunta é sempre a mesma: “Why the ron always run?”


Monologue

julho 21, 2009

Tout le monde peut se tromper.
C´est humain.
Je suis un peu déçue.
Je voudrais pouvoir revenir en arrière et tout recommencer.
Si au moins…
Non. Je ne crois pas que ce soit une bonne idée.


Morta por estupidez

julho 15, 2009

Guardou cinco minutos dentro de um cigarro e voltou seu olhar para o caos do remorso que enchia sua alma.
Sofrera de duas derrotas fatais: uma pela paixão, outra pela dúvida.
Relembrou os insultos que não proferiu, mas que fez, e duas lágrimas espessas deslizaram pela face abatida.
Da noite anterior do pesadelo poderia nascer algo belo se articulasse apenas uma palavra em tom de súplica intensa: “desculpa”.
Determinada a sair da perene ignorância de suas misérias, ela decide a viver na perene ignorância da paixão.
Apaga o cigarro com firmeza.
O sangue do seu flagelo por fim, se estancaria.


Balada do Coração Partido

junho 10, 2009

O Pequeno Princípe conta que assistiu quarenta e três vezes ao por-do-sol. Um amigo ouviu Ugly Sun 211 vezes em menos de 12 horas. Aquela balada vestiu sua alma num dia ressentido e nublado. As crianças são capazes de repertir um filme inteiro, antes mesmo dos créditos subirem elas já estão com o dedinho no play pra repetir as frases e canções guardadas no dual-core. Quando gostamos das coisas queremos repetir. De tão simples, chega a ser tolo. Mas repetimos o prato, repetimos a dose, repetimos a música, repetimos o filme, repetimos a roupa… e repetimos também o amor. Como é fantástico se reapaixonar pela mesma pessoa! Conside as alterações de cenário, as dissonâncias entre o compasso do amadurecimento, respeitando as diferenças e os limites de cada um… É incrível quando acordamos e de repente, repetimos os pensamentos pueris da paixão, repetimos o sorriso no rosto por resgatar as lembranças no baú das memórias, repetimos o suspiro da ausência completa de palavras. É ótimo se reapaixonar pela pessoa a seu lado há tanto tempo, mesmo que de alguma forma isso parta o seu coração. Ou ainda que você tenha que repetir mil vezes o refrão de um bolero. Se reapaixonar é a versão aprimorada da paixão. Conseguir se reapaixonar muitas vezes pode ser o segredo do que significa permanecer junto, happily ever after. Junto que não quer dizer perto, mas sim dentro, com dizia Leo da Vinci. Essa é a balada do coração que parte, mas por querer repetir, ele sempre percorre milhas e milhas, e se reapaixona sempre. Sempre pela mesma pessoa.


Leaving on a jet plane

maio 30, 2009

All my bags are packed, I´m ready to go
Im standin here outside your door
I hate to wake you up to say goodbye
But the dawn is breakin its early morn
The taxis waitin, he´s blowin his horn
Already Im so lonesome I could die

So kiss me and smile for me
Tell me that youll wait for me
Hold me like youll never let me go
cause Im leavin on a jet plane
Dont know when Ill be back again
Oh babe, I hate to go


Belo e impávido Gigante

abril 28, 2009

Para construir a grandeza de uma pessoa existe uma equação despretensiosa, que desobriga o cálculo matemático quântico, mas exige o conhecimento físico, sobretudo visual e tátil e que se inicia com a soma de um metro e oitenta e seis centímetros mais o comprimento do sapato que calça um pé quarenta e três. Estime a colheita de dois anos seguidos dos ramos de sakurá que cobrem as colinas do bíceps braquial de um vermelho sangue. Calcule quilômetros de veias que conduzem litros do raro sangue, que serve a todos e como punição por ser tão generoso só se serve dele mesmo. Outras variantes menores são consideradas nessa engenharia como o tamanho curto do pavio da paciência para os desafortunados ou o incansável das carícias para o sexo; os dois centímetros do pêlo russo da barba que desafia a gravidade e é insistente em seu propósito em manter-se ereto em dissonância com seus pares; as dezesseis milhões de cores da íris verde atenta extraída de uma imagem de mar; as centenas de alvéolos pulmonares envenenados por nicotina e as dezenas de fragmentos de ossos perdidos na carne depois de quedas e brigas… a cavidade nasal obstruída. Equacione essas variáveis com um apetite colossal, uma vontade intensa de vida, um jeito manso e grave de falar e espontâneo de se divertir e de procurar graça nas mínimas coisas. Entregue o resultado em uma palma com ângulo curto de abertura, repleta de calos e cortes e linhas que revelam seu futuro espelhado em grandeza e que, adicionada aos dez dedos são capazes de afagos suaves ou força descomunal… As mãos talham então os números dessa minha equação mágica, transformando a brutalidade da rocha em um dorso macio que poderá servir de abrigo quando não estiver operando em sua designação maior como Gigante, belo e impávido, pela própria natureza.


Eu vou cantar você pra mim

abril 16, 2009

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Fera Ferida

abril 13, 2009

Agora que você tem esse carro grande, certamente pra compensar sua baixa estatura, com esse som tão potente, tire uma semana pra amaciar o motor. Carros são como cavalos, precisam conhecer o peso dos seus pés. Você anda precisando mesmo de férias, aproveite para revisitar seu passado e pegue uma estrada longa que você conhece bem mas há anos não percorre. Eu cuido de tudo pra você nessa sua ausência.
Arrume apenas uma mala, mesmo que seja aquela que comporta 80 quilos. Não reserve estadias, não trace rotas. Apenas plugue o mp3 no som, acerte os óculos no rosto confortavelmente e saia. Num dia de semana, sem hora certa. Depois daquela altura da estrada onde se fizeram tantos pequiniques, trave o piloto em 190 km/h, coloque os pés pra cima e acenda o farol alto, ainda que sejam duas horas da tarde. Deixe que aqueles por quem você ultrapassa pensem: “Lá vem a Fera Ferida”. É mais digno morrer em alta velocidade e, se pensarmos que você foge dos seus fantasmas é mais divertido imaginar que você sofre e por isso corre.
Sua infinita highway guarda um pouco de sua história. Como aquela vez em que a chuva começou um minuto depois de colocar todas as malas pra frente. Como nas idas e vindas infinitas de lágrimas, o choro compulsivo que irritava o motorista de ônibus, ou aquela vez que você parou no pedágio aos prantos e o moço da cabine fechou a cancela e te trouxe um copo d´agua com açúcar. Lembra? Você riu depois.
Caso você encontre a chuva, diminua a velocidade. Não queira aquaplanar como daquela vez na subida da divisa, nem se assustar com um carro repentinamente apagado na pouca visibilidade. Lembre-se daquele sábado, indo pra Lorena, na companhia da Loreena, como a chuva batia na carroceria e como foi assustadora pra você. Aquele dia não foi um bom dia. Mas acabou tudo bem, sempre acaba. Mesmo quando você passou em cima do pé do policial rodoviário, ainda assim, ele te liberou, mas era a calça pijama, o viaduto do Jararaca, o Pinhão e uma lista de desculpas ensaiadas previamente. Essa abordagem sutil, meio moleque, que te fez andar de caminhão muitas vezes nessa estrada, com conforto, coca-cola gelada e chocolate, ah!
Além das caronas que você pegou, lembre-se das que você deu. “Polícia. Alguém abaixa a cabeça”, era a senha pra duas pessoas começarem um desacordo sobre quem ficava abaixado e quem deveria levantar, o que sempre te fez rir muito. Pessoas levavam música, alegria e deixavam um pouco de si como perfumes e pertences. Lembra da vibração dos amigos ao entrar na 152 com o pé no fundo e ouvir um “Segura, galera!” E quantas festas no ônibus da faculdade quando tudo foi recapiado, e quantas vezes gelando no posto da patrulha de madrugada, e quantos rachinhas com desconhecidos que viraram café da manhã e quantas sextas-feiras de asv com seu pai e quanto rock’n roll e quantos morreram e quantas vezes você não quis voltar… e talvez ainda não queira, mas tem um motor pra amaciar e tempo excedente, o que é uma variável sempre escassa na sua vida.
Então, aproveite pra ver tudo e todos de novo. Sem nenhum receio. Você chegará a tempo de assistir aquele belo poente do bar do meio e como é segunda-feira e outono, você não sentirá timidez em sacar sua gaita pra reverenciar o céu laranja, rosa e azul que ilumina teu retorno. Corra no lago com a graciosa companhia do motoqueiro que parece o vocalista de uma de suas bandas favoritas e faça-o tirar a camisa. Quando pensar em voltar, não esqueça da minha cachaça, da rede azul que ando querendo e daquele salame que só tem por essas bandas.
Volte bem devagar, pode ser que você precise de mais dez anos. Não ligue seu celular, não abra a internet, não anseie pela rotina. Não se afobe, mesmo. Ou como dizia o seu príncipe “Sem pressa. O inverno é longo. Haverá tempo para dividir aquele edredon”.
Reencontre o conforto desse mundo em sete dias e dois mil quilômetros. Depois volte. Eu estarei aqui te esperando.