Resgatado do baú de velharias, notações com mais de 10 anos, em folha timbrada da Coordenadoria Regional Metropolitana II, com um rabisco de recado rasgado no meio. Pertinente com os assuntos tecnosensoriais publicados no preto-rosa, o alterego do branco-azul:
“O primeiro momento contemplativo de um amoroso foi o advento da estética, no gozo visual das linhas da formosura, nas delícia auditiva de uma expressão inarticulada, que fosse emitida ante do aroma indefinido da carne. A obra de arte do amor é a prole, o instrumento é o desejo.
Depois da arte primitiva fundamental do tato, a arte do ouido. A obra de arte é a frase sentida, hábil para produzir emoção, o instrumento é a linguagem.
Esta arte devia mais tarde ramificar-se em eloqüência propriamente e poesia popular, graças à aproximação híbrida da terceira arte, do ouvido, a música.
Com o progresso humano, o sentimento artístico da simetria e harmonia destacou-se analiticamente da arte de amar. E, depois da arte primordial, descendente imediata do instinto erótico, da qual se desprendera, sob a forma selvagem das interjeições primitivas, a arte da eloqüência; e em seguida, sob a formade expressões homométricas, a poesia popular e a primeira música; nasceram as artes intencionais, de imitação, da escultura, da arquitetura, do desenho. Depois da poesia popular, amorosa ou erótica, veio a rapsódia.
Ainda mais, segundo um traçado naturalíssimo de filiação o sentimento da simetria, traslado para a esfera das relações sociais, serviu de plano à organização das religiões filhas do pavor, e das moralidades, invenção da maioria dos fracos. Com o predomínio insensato das religiões, o amor deixou de ser um fenômeno, passou a ser um ridículo ou uma coisa obscena.
Por um raciocínio de retrocesso, ponderamos que a moralidade é a organização simétrica da fraqueza comum, que a religião é a organização simétrica do terror, que a simetria é a norma artística das imitações plásticas da ingênua admiração da criatura primitiva.”
Cópia da página 126 de O Ateneu, caído em minhas mãos numa tarde paulista muito quente de 1997, na esquina da Rua Tiradentes.