Chuva na metrópole, faróis altos para romper o breu, prédios geminados, janelas devassadas. Era assim ontem à noite. Ontem foi aniversário do meu vizinho. Eu só o vi uma vez, num final de semana, pela alvorada. Trajando uma cueca samba canção molhava as plantas. Ele tem poucas plantas, mas tem um bambu mussô pomposo. Aqui só duas orquídeas e uma flor de maio que floresce em julho. É uma varanda grande e três janelas de quartos e uma maior que abre para a varanda. Aqui só tem duas janelas. Ontem a varanda estava cheia. Um senhor de alva cabeleira apoiado na grade, outros sentados nas quatro cadeiras de vime com encosto em brim natural, entre duas mesinhas circulares dispostas de forma a não atrapalhar a passagem. Transeuntes para todos os lados. Aqui só vazio e solidão, nada atrapalha meus passos desconfiados. Luzes todas acesas, muita claridade e rubor nas faces. Aqui só escuridão. Muitas camisetas brancas, havia um rosto estampado e uma frase ilegível. Aqui uma gola rolê preta, um rosto desfigurado e muitas frases sem qualquer nexo. Eles cantaram o “Parabéns para Você” três vezes. Devem ser trigêmeos. Ou meu vizinho escapou três duas vezes da morte. Ou ele, o pai e a mãe nasceram no mesmo dia. Aqui, silêncio… ouvia apenas o trabalho vital de obtenção de ar. Crianças giravam seus pezinhos entre pernas adultas, soltavam gritinhos de susto e povoavam o ambiente com os sons da alegria. Aqui só tristeza. Cristal conservado em armário por anos, tilintava em brindes de felicidades e muita saúde. Aqui só dor, desânimo, desamor. Se uma alma desatenta da fantástica festa tivesse reparado no apartamento apagado da frente, talvez percebesse minhas órbitas nas trevas. Os pingos da chuva que escorriam pela janela fariam parecer que eu chorava.
Outubro 30, 2008 às 4:01 am
CARALHO!!! Quando vc vai parar de fazer a gente sentir por voce? Pau no seu cu!!! como voce diria…