Ainda não é inverno, mas o frio já chegou aqui. O sol alto e o céu muito azul com nuvens ralas, esparsas, evidenciam uma bela segunda-feira sem muito o que fazer. Pegamos a estrada de terra que ainda não sabemos em que estado está, com as chuvas era certo encontrar atoleiros nos 10 quilômetros à frente. Era um dia de sorte. Um caminhão, provavelmente de areia, teria passado muito bem antes de nós e coberto os pontos críticos por onde poderíamos ter agarrado. Com todo o respeito que existe entre automóveis e estradas de chão, vamos entrecortando as montanhas, atravessando o rio de um lado e de outro em pontes de madeira trepidantes, com ripas soltas, que gelo no estômago! O mato que cresce no meio do caminho revela o baixo tráfego de pessoas e rodas. Uma paisagem bucólica, verde, iluminada. Um pau-d’alho exibe sua força suntuosa nas raízes que descem o barranco e quase encontram a estrada. “É a curva da Fazenda da Alegria”, da qual só sobraram as ruínas de pedra dos muros que a cercaram um dia. Um sombreiro de bambus. “Aqui uma vez o papai veio buscar o amigo do filho da D. Julieta. Um mensageiro a cavalo foi lá em casa pedir ajuda e o vovô veio com tio Eraldo. Ele tinha sido mordido de cobra e era filho do general Lotz. Esse general Lotz era um cara muito temido, tinha sido imposto governador e era influente na baixada fluminense. Papai vazou aqui por dentro e foi sair lá na ponte de Berçot. O tio Eraldo voltou pra casa a pé, chegou às seis horas da tarde, pra dar notícia pra vovó”. Assim vai falando meu pai. Enquanto presta atenção na estrada, aponta a história daquela terra, fazendo uma paradinha aqui outra ali – estamos entre os quatrocentros alqueires da Fazenda São Lourenço. Uma curva, muitas casas e já se vê o telhado. Fazenda velha essa. Do tempo em que as telhas eram moldadas nas coxas. Casa imponente. Muitas grandes janelas, muito altas, guardando salas com espelhos bisotados e folheados a ouro. Cada sala um estilo. A biblioteca com um exemplar manuscrito do Rei Lear. De repente, um jardim aberto, no meio da casa, para uma piscina de água corrente. Uma capela. Todas as paredes caiadas de branco, janelas e portas em verde. Um amplo terreiro de café, tomado pelo mato. Lodo nas escadarias do acesso principal. Um curral descuidado. Um duto seco de água que um dia abasteceu o engenho de cana, a casa e a piscina. “Aqui era uma escola, olha”. Bonito de imaginar as reuniões e as pessoas que estiveram ali há 100, 200 anos. Triste de ver seu destrato. Entre os rastro da boiada que circula por onde um dia foi jardim da casa, manobramos nosso carro, meu pai um pouco contrariado de passar o pneu na bosta. Ele sempre me disse que bosta de vaca é muito ácida e corrói a lataria. “E se acontecesse com você? Eu te pergunto: você ia preferir viver na miséria ou vender suas terras pra ter uma vida mais digna?”. Penso um pouco antes de responder e olho praqueles colos verdes infindos de terra. “Terra é terra. Não é uma coisa da qual se desfaz. Além do mais, terra assim é crédito, pode não ser dinheiro no bolso, mas é cooperativa, é parceria com instituições agrícolas, universidades. Você pode diversificar, se associar a muitos. Esse é meu jeito muito peculiar de ver as coisas, pai. Ninguém que tem terra pode passar fome”. Não sei que resposta ele esperava, mas essa resposta deu seqüência a uma série de comentários sobre os quatrocentos alqueires da Fazenda do Coqueiro, e ao mesmo tanto da Fazenda do Canteiro… até que encontramos novamente o asfalto para a Fazenda do Barro, o sítio São José, meus extensos domínios alegrenses.
Maio 4, 2008 às 12:49 am
Ana, teus textos são muito bonitos. Você devia ser escritora. bjos
Julho 28, 2008 às 8:07 pm
Ana.
Gostaria de parabeniza-la pelo texto. Eu procurava alguma referencia dessa fazenda e fiquei muito feliz quando encontrei este texto.
Eu morei nestra fazenda, saí de lá em 1975 e morro de saudades. Talvez seu pai tenha conhecido minha mãe que era muito conhecida lá, o nome dela era Maria de Oliveira, mais conhecida como ” piquitita” .
grande abraço.