Dorme, amor
Encerre essa vigília que se alonga por dias ardentes e noites estreladas
Cerre as pálpebras exaustas de tanta luz
Permita que a noite colha o negro profundo de seus olhos para cobrir o céu dessa noite
Eu estarei ao seu lado
Envolva o travesseiro, alivie suas mãos cansadas e doídas sob sua maciez
Ele será a suave brisa perfumada e você a borboleta voando no dossel desses braços
Somente hoje retirarei a semente de feijão colocada no estrado, abaixo de seus dezesseis colchões para incomodar-te
Num débil murmúrio, entoarei a canção morna, a lírica doação que nunca perece na concha de teus ouvidos
Desenharei em suas costas as mais belas constelações, ligando e refazendo cálculos de sardas de todo um universo
Um universo feminino docemente inebriado de sonhos e esperança
Sonharás com fadas e encantos, paragens, aves divinas, campos acetinados e cheiro de mar
Sem qualquer pertubação que te atormente
Mesmo que o canto do regato leve lágrimas ocultas aos seus olhos
Deus tratará de enxugá-las. Deus é o Deus dos Valentes.
E afinal, quem é essa mulher a quem a noite homenageia embriagada de alegria?
Dorme, amor
Não lhe será permitido revisitar as laranjeiras em flor mais de uma vez
Nem permanecer no porto aguardando o barco que enfrentará rios encaichoeirados e nos levará a nossa ilha no nascente
É já que o ar da magrudada desesperta com um beijo a vida que dorme
Dorme, amor.