Lisbela tenta explicar pro seu pai porque vai fugir com Leleo Antonio da Anunciação. “Toda vez que ele me chamar eu vou, como um cachorrinho, mas coroada, como uma rainha”. Simplesmente porque pra ele, ela ficaria linda até vestida de Bozo, ou ainda, porque os corações nunca se enganam e o dela nunca houvera batido tão forte até aquele beijo de seis minutos.
“Le Vallée de la Douceur
Um reencontro impulsivo. Ambos sabiam das improbabilidades estatísticas, e parte de nós duvidou mesmo até o último segundo – meras trevas de incerteza que como relâmpagos negros antecederam a aurora gloriosa de seu sorriso. Sua silhueta esguia o sustenta como a um altar de marfim que paira no horizonte banhando de luz e néctar as minhas lembranças. O hiato cruel que se formou entre nós se esvai indefeso e impotente conforme nos aproximamos – não me lembro como resisti ao impulso de correr em sua direção. Seu corpo ainda delimita um espaço leve e delicado entre meus braços, um pedacinho tangível e perfumado do próprio céu. O abraço frágil, e ainda quase tenso, é como uma última evidência física, a prova sensorial que confirma o inusitado à incrédula razão. Aninha carinhosamente em seu peito as flores que lhe dei, com a gentileza de não ligar que eu as tenha colhido em seu próprio jardim. Acolhe-me em seu sótão no conforto aconchegante de sua eloqüência, conta-me do mundo lá fora com a cumplicidade de uma saudosa irmã, aceita-me achando graça nas minhas confusões. E nesse frugal desjejum de nossos corações, redescobrimos o encanto de ser e estar. Existimos, mas nenhuma prece é longa demais – o que também acontece com certas canções. E afinal, com a elegância de quem escapa de bandidos nos passos de uma doce valsa, você me guiou de volta a mim mesmo enquanto eu sonhava acordado. Tivemos que esperar para celebrar, o tempo chegou e foi embora, e agora, os minutos que não me passam aí ao seu lado de repente soam opacos por aqui.
Por onde estivemos esse tempo todo?”