Sábado:
- Dra, você pode por favor, colocar um Valiumzinho aí no soro, pra eu dormir umas 20 horas, vai ser duro ficar ouvindo os blocos na rua de baixo…
Segunda:
- Pai, tô liberada, vem me buscar. Te espero na praça da matriz. Vem rápido porque a rua de baixo vai fechar por causa dos blocos.
Meia-hora depois, na praça da matriz, eu de short colorido, sandália e camiseta cor-de-rosa, na flor da idade, caminho muito devagar. Minha tia, de 82 passa por mim:
- Oi, lindinha, tudo bem? Tá indo pro Jegue (bloco)? – me aperta num abraço.
- Não tia, to esperando meu pai, tô indo pra Barra Alegre. Cuidado, tia, vou te sujar de sangue.
- Ah, NOSSA! O que houve, tem um rastro de sangue, deixa eu ver esse dedo, o que houve, vamos pro hospital agora mesmo!
- Tia, eu acabei de sair de lá, você não tá entendendo. Olha, isso não é nada, eu to acostumada arrancar os tampos dos dedos, esse eu tirei com a faca semana passada e agora eu arranquei ele de novo no corremão do hospital, não tá doendo, só vai ficar pingando sangue até meu pai chegar. Ele sempre tem um pano no carro, eu vou enrolar o dedo e vai estancar.
Ela parecia meio indignada, mas acabou sorrindo e me ofereceu a coca zero que ela tomava.
- Tá bom. Vocês… jovens… A tia Geralda tá bem (minha avó)?
- Tá ótima, aparece lá em casa, tia. Ela vai ficar feliz de te ver.
- Tá bom, minha filha. O Xidei (meu pai) vai demorar muito? Quer que eu espere com você?
- Não, tia linda. Ele deve estar chegando, pode ir sossegada. Não se preocupe com o sangue. O dia em que eu parar de sangrar eu vou estranhar.
- Então vou ver o Jegue. Fica com Deus.
- Vai com ele, tia.
E ela foi, toda serelepe e a passos rápidos acompanhar o Bloco do Jegue Elétrico, enquanto meu pai apontava na curva.