Fera Ferida

Abril 13, 2009

Agora que você tem esse carro grande, certamente pra compensar sua baixa estatura, com esse som tão potente, tire uma semana pra amaciar o motor. Carros são como cavalos, precisam conhecer o peso dos seus pés. Você anda precisando mesmo de férias, aproveite para revisitar seu passado e pegue uma estrada longa que você conhece bem mas há anos não percorre. Eu cuido de tudo pra você nessa sua ausência.
Arrume apenas uma mala, mesmo que seja aquela que comporta 80 quilos. Não reserve estadias, não trace rotas. Apenas plugue o mp3 no som, acerte os óculos no rosto confortavelmente e saia. Num dia de semana, sem hora certa. Depois daquela altura da estrada onde se fizeram tantos pequiniques, trave o piloto em 190 km/h, coloque os pés pra cima e acenda o farol alto, ainda que sejam duas horas da tarde. Deixe que aqueles por quem você ultrapassa pensem: “Lá vem a Fera Ferida”. É mais digno morrer em alta velocidade e, se pensarmos que você foge dos seus fantasmas é mais divertido imaginar que você sofre e por isso corre.
Sua infinita highway guarda um pouco de sua história. Como aquela vez em que a chuva começou um minuto depois de colocar todas as malas pra frente. Como nas idas e vindas infinitas de lágrimas, o choro compulsivo que irritava o motorista de ônibus, ou aquela vez que você parou no pedágio aos prantos e o moço da cabine fechou a cancela e te trouxe um copo d´agua com açúcar. Lembra? Você riu depois.
Caso você encontre a chuva, diminua a velocidade. Não queira aquaplanar como daquela vez na subida da divisa, nem se assustar com um carro repentinamente apagado na pouca visibilidade. Lembre-se daquele sábado, indo pra Lorena, na companhia da Loreena, como a chuva batia na carroceria e como foi assustadora pra você. Aquele dia não foi um bom dia. Mas acabou tudo bem, sempre acaba. Mesmo quando você passou em cima do pé do policial rodoviário, ainda assim, ele te liberou, mas era a calça pijama, o viaduto do Jararaca, o Pinhão e uma lista de desculpas ensaiadas previamente. Essa abordagem sutil, meio moleque, que te fez andar de caminhão muitas vezes nessa estrada, com conforto, coca-cola gelada e chocolate, ah!
Além das caronas que você pegou, lembre-se das que você deu. “Polícia. Alguém abaixa a cabeça”, era a senha pra duas pessoas começarem um desacordo sobre quem ficava abaixado e quem deveria levantar, o que sempre te fez rir muito. Pessoas levavam música, alegria e deixavam um pouco de si como perfumes e pertences. Lembra da vibração dos amigos ao entrar na 152 com o pé no fundo e ouvir um “Segura, galera!” E quantas festas no ônibus da faculdade quando tudo foi recapiado, e quantas vezes gelando no posto da patrulha de madrugada, e quantos rachinhas com desconhecidos que viraram café da manhã e quantas sextas-feiras de asv com seu pai e quanto rock’n roll e quantos morreram e quantas vezes você não quis voltar… e talvez ainda não queira, mas tem um motor pra amaciar e tempo excedente, o que é uma variável sempre escassa na sua vida.
Então, aproveite pra ver tudo e todos de novo. Sem nenhum receio. Você chegará a tempo de assistir aquele belo poente do bar do meio e como é segunda-feira e outono, você não sentirá timidez em sacar sua gaita pra reverenciar o céu laranja, rosa e azul que ilumina teu retorno. Corra no lago com a graciosa companhia do motoqueiro que parece o vocalista de uma de suas bandas favoritas e faça-o tirar a camisa. Quando pensar em voltar, não esqueça da minha cachaça, da rede azul que ando querendo e daquele salame que só tem por essas bandas.
Volte bem devagar, pode ser que você precise de mais dez anos. Não ligue seu celular, não abra a internet, não anseie pela rotina. Não se afobe, mesmo. Ou como dizia o seu príncipe “Sem pressa. O inverno é longo. Haverá tempo para dividir aquele edredon”.
Reencontre o conforto desse mundo em sete dias e dois mil quilômetros. Depois volte. Eu estarei aqui te esperando.

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