O diálogo acontece num sítio no Carmo entre eu e uma tia doce e firme tal qual rapadura:
- “Outro dia eu fui no médico e ele perguntou como era minha vida sexual”
Ela embola as mãos, indicando que é desconcertante introduzir esses assuntos. Uma flor.
- “Então eu disse que era tudo normal, que não tinha nada de errado não”
Eu ri.
- “Mas falei pra ele que gosto de ser tratada com uma dama. Não sou um cavalo que se monta. Gosto que aconteça tudo direitinho, sabe?”
- “Sei, sim”. Respondi com um pingo de lamento porque são coisas raras, mas continuei: “Lentos e longos beijos, exploração de toda menor geografia do corpo, observação de cada detalhe… despir-se bem devagar e passar a noite toda amando”.
Ainda bem que eu sei como é.
Arquivo para abril, 2010
Prosa e Sexo
abril 26, 2010Elogio ao cuidado
abril 14, 2010Eu prefiro correr pouco. Eu podia correr mais, mas a tíbia não deixa. Eu devia ficar na cama sem fazer nada e aí, em junho eu estaria correndo normalmente. Mas eu prefiro correr um pouquinho por dia e quem sabe no ano que vem eu retomo a quilometragem de antes.
Eu prefiro ter bolhas nos pés. Ainda que os sapatos apertem e faça calos e olhos de peixe. É preferível ter os pés arruinados a usar sapatos confortáveis.
Entre dormir e trabalhar eu prefiro o segundo. Gosto mais de estudar e trabalhar, mas as vezes eu preciso dormir muito e me permito esse exagero. Assim cuido da minha desgatada mente.
É bom ver os pulmões a plenos vapores e sentir o coração pulsando na garganta. Afastar o diafragma do umbigo e tomar ar. Eu prefiro.
Eu prefiro exercitar a vista, conforme sugestão médica, ao conforto indiscutível dos óculos.
É preferível ter força nos braços pra bater manteiga e pão e provar um pedaço de céu na boca do que ter músculos flácidos ao acenar.
Eu prefiro ter os pulsos lanhados do que deixar de usar pulseiras.
Prefiro ter as pernas arranhadas do que deixar de andar no mato.
De todos os meus órgãos e tecidos só tem um que não tem preferências: só não dá pra expor o coração a riscos. De tão flagelado, ele mal bate ou apanha. Suas feridas estão expostas, abertas, não há sinais de sutura. Não há cicatrizes porque ele não cicatriza.
Então, eu prefiro ter um coração cuidado, guardado num relicário, do que exposto a desaventuras.
Responsável que sou por seu estado lastimável, acendo uma vela todos os dias por ele, e peço que ele me perdoe e possa continuar pulsando sem se incomodar com minha presença ao seu redor.
Santa Semana
abril 4, 2010Era sábado de aleluia. Ela havia brincado bastante com a semana adjetivada e ria disso. Tarde quente e úmida, o cheiro de chuva da grama de fora se misturava com o cheiro do pó de serra e tiner.
Estava na oficina de seu pai. Quer dizer, na oficina do seu avô. Ou melhor, na oficina que fora do seu bisavô. “Até parece que sabe lidar com isso aí”, comenta despretencioso o caseiro. Ela suspira um tanto impaciente. “Do jeito que você gosta de pó de serra e tinta, só pode mesmo ser neta do Evilásio. Sabe que ele só saía da casa da luz pra vir almoçar?”. Sai um “É…” comprido e grave, suficiente para fazer seu interlecutor perceber que ela desejava estar a sós, apenas com o silêncio em sua mente.
A tarefa daquela tarde era relativamente simples e ela buscava nos suspiros da sexta-feira da paixão a inspiração para adornar uma delicada caixinha. Usou tinta a base de cor de creme acizentado, “menos vermelho e mais azul”, pensou em rgb e, com um pincel delicado, deveria brincar de arabescos. “Jasmim Manga…”, pensou e sorriu largo, “sim, Jasmim Manga!”.
Imitou a pequena e delicada flor do pé de Jasmim Manga, uma flor de quatro pétalas, de um rosa suave. Em seu tradicional grafismo, apenas os contornos pretos. Uma, duas, dez… galhos e vento. Um mosquito de feijão veio lhe fazer companhia. Mordeu-lhe as orelhas, mordeu-lhe a nuca, mordeu-lhe o pescoço. Concentrada na precisão dos seus traços, ela se recusa a armar as mãos a espalmá-lo. Nem precisou. Ele caiu, talvez inebriado pelo odor da tinta à base de óleo e prendeu um dos seus seis minúsculos pés na tinta fresca, num dos ramos do pés de jasmim. Ela riu. Observou-o de perto, ao mesmo tempo em que finalizava seu desenho, um pé de jasmim manga num sábado de aleluia.
Um pé de jasmim manga pra adornar a caixinha da única semana adjetivada do ano: semana santa, sexta-feira da paixão, sábado de aleluia, domingo de páscoa.