Eu prefiro correr pouco. Eu podia correr mais, mas a tíbia não deixa. Eu devia ficar na cama sem fazer nada e aí, em junho eu estaria correndo normalmente. Mas eu prefiro correr um pouquinho por dia e quem sabe no ano que vem eu retomo a quilometragem de antes.
Eu prefiro ter bolhas nos pés. Ainda que os sapatos apertem e faça calos e olhos de peixe. É preferível ter os pés arruinados a usar sapatos confortáveis.
Entre dormir e trabalhar eu prefiro o segundo. Gosto mais de estudar e trabalhar, mas as vezes eu preciso dormir muito e me permito esse exagero. Assim cuido da minha desgatada mente.
É bom ver os pulmões a plenos vapores e sentir o coração pulsando na garganta. Afastar o diafragma do umbigo e tomar ar. Eu prefiro.
Eu prefiro exercitar a vista, conforme sugestão médica, ao conforto indiscutível dos óculos.
É preferível ter força nos braços pra bater manteiga e pão e provar um pedaço de céu na boca do que ter músculos flácidos ao acenar.
Eu prefiro ter os pulsos lanhados do que deixar de usar pulseiras.
Prefiro ter as pernas arranhadas do que deixar de andar no mato.
De todos os meus órgãos e tecidos só tem um que não tem preferências: só não dá pra expor o coração a riscos. De tão flagelado, ele mal bate ou apanha. Suas feridas estão expostas, abertas, não há sinais de sutura. Não há cicatrizes porque ele não cicatriza.
Então, eu prefiro ter um coração cuidado, guardado num relicário, do que exposto a desaventuras.
Responsável que sou por seu estado lastimável, acendo uma vela todos os dias por ele, e peço que ele me perdoe e possa continuar pulsando sem se incomodar com minha presença ao seu redor.