Arquivo para 2 dezembro, 2010

A Egoísta

dezembro 2, 2010

Essa é uma mensagem para duas egoístas. Mas não são quaisquer duas egoístas, são duas egoístas que insistem em ter amigos. A questão do gênero aqui, vai variar. Se vc preferir, o título pode ser O Egoísta. Não importa. Você, tenho certeza, já encontrou gente assim, ou o que seria pior, já se comportou assim.

Era uma vez A Egoísta. É desnecessário dizer que só pensava em si. Não era aquilo que podemos chamar de bela, já que a natureza de suas curvas desproporcionais seria considerada banal pela indústria da beleza contemporânea. Também não era financeiramente muito bem provisionada, embora achasse que sim e se importasse bastante em ostentar seus parcos recursos.

A instrução e o acervo cultural da A Egoísta deveriam ser considerados, pelo discurso ou pelo currículo que fazia questão de exibir, no entanto, como suas preocupações voltavam-se apenas para o seu umbigo, era pouco profunda e revelava seu despreparo ao tentar criticar ou relacionar temas aparentemente impossíveis. Nem todos os títulos poderiam melhorar essa condição, pois ela não possuia o elementar, a sedimentação de seus conhecimentos.

Sua insegurança era declarada pelo gosto excessivo pela exposição. Seus caprichos advindos de uma infância mimada se relevavam na constante necessidade de fazer prevalecer suas ideias, suas histórias, suas mentiras. Sua arrogância notava-se na falta de fino trato com as pessoas que a cercavam, sobretudo os que lhe prestavam atendimento e serviço. A Egoísta preferiu transformar a autonomia que herdou do sacrifício feito por filósofos em defesa do individualismo, em puro egoísmo.

Nunca a vi perguntando aos amigos se eles precisavam de alguma coisa. Se havia alguma coisa que ela poderia fazer por eles. Era raro vê-la replicar: “e você? tudo bem?”. Nem havia consciência nela sobre a falta de altruísmo. Jamais se pode sentir falta do que nunca se teve. Era incapaz de perceber tristeza, ansiedade ou alegria no semblante de seus amigos. Não ajudava as pessoas porque não tinha tempo para conhecê-las a fundo e assim, não estabelecia laços confiáveis para estender publicamente sua mão amiga, tomando esse ato como risco contínuo.

Jamais prestou-se à caridade, mesmo a mais entregue de todas que se faz ao emprestar os ouvidos para alguém despejar lamúrias. O pouco bem que fez cobrou à exaustão, difundindo entre seus pares suas atitudes de compaixão e realizando um julgamento quase voraz sobre suas vítimas. Não teve oportunidade, a pobre, de desfrutar do benefício do esquecimento quando fazemos o bem para quem amamos.

Ou talvez nunca tivesse amado seus amigos de fato. Ou nem saiba exatamente o que significa ter um amigo. Agora, talvez, não importe mais. Um dia, seus amigos se foram. Cansaram-se de ver que A Egoísta, circulada por seu mundo e seus caprichos, jamais perceberia que existem milhares de mundos em volta do seu, que precisam ser vistos, explorados e reconhecidos.

E assim, A Egoísta passou o resto de seus dias no enorme castelo de ilusão que construiu para si e não importava quantos aduladores flutuassem ao seu redor. Ela sentiu só para sempre.

Fim

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